Hoje tive a oportunidade de assistir ao musical "Lazarus", uma das últimas façanhas do David Bowie antes de sua partida rumo às estrelas, digamos. Trata-se de uma obra inspirada no livro "O homem que caiu na Terra", de Walter Tevis. Não custa lembrar que o próprio Bowie, em 1976, estrelou o filme baseado no livro.
"Lazarus" aborda a história de Thomas Newton, um alienígena que veio à Terra. Em "O homem que caiu na Terra", seu objetivo era levar água para seu planeta natal, salvando sua família; na Terra, porém, vivenciou uma série de experiências novas: se relacionou com Mary Lou, que se interessou por ele; enriqueceu se aproveitando de ter conhecimentos tecnológicos avançados; desenvolveu um apreço nocivo pelo álcool. Pouco a pouco, suas possibilidades de retornar a seu planeta se afastaram.
Em "Lazarus", reencontramos um Thomas Newton entorpecido por seu vício em gin e sua obsessão por cookies. Visto não propriamente como um alienígena, mas uma pessoa excêntrica, permanece solitário em seu apartamento; Mary Lou fora embora há muito tempo. Mantendo sua juventude apesar do avançar dos anos - o que chama a atenção das pessoas -, Newton diz estar "morrendo aos poucos" diariamente, apesar de a mortalidade não lhe parecer uma realidade - ao menos não em uma temporalidade terrestre. A essa altura, sequer sabemos se a apenas mencionada Mary Lou está viva.
Solitário, melancólico, entorpecido: pouco a pouco, Newton se entrega à loucura. Aparentemente, seus únicos contatos com a realidade são um homem que conhece sua natureza e Ellie, uma mulher recém-contratada para trabalhar como assessora. Ellie, em particular, está infeliz com diferentes aspectos de sua vida, como seu casamento: nos diálogos mantidos com o marido, não deixou de expor essas questões. A jovialidade e a excentricidade de Newton passaram a chamar sua atenção - em busca de uma "vida nova", pinta seu cabelo de azul e chega a se convencer de que era Mary Lou. Como a própria assume, não necessariamente amava o alienígena, mas ansiava por mudanças nos rumos que tomara.
A loucura leva Newton a manter contato com pessoas que não se sabe se existem de fato, como uma jovem que eventualmente aparece com o objetivo de lembrar a Newton sobre seus antigos propósitos - ou seja, retornar ao planeta natal. O alienígena, inclusive, pede que ela lhe conte alguma lembrança boa, como quando ele levava sua filha às colinas para observar as estrelas e contar histórias. Sua família ainda estaria viva depois de tantos anos? Aos poucos, essa jovem passa a representar a "esperança" para Newton.
Paralelo a isso, temos também a introdução de um personagem chamado Valentine. Curioso para conhecer Newton - que parece acompanhar desde criança -, ele procura se apresentar como um sujeito tranquilo e afável, disposto a colaborar com o alienígena no sentido deste alcançar um lugar verdadeiramente pacífico se comparado à Terra. Valentine, no entanto, é um homem frio e calculista, frequentemente demonstrando não ter muito senso de moral. Em algumas cenas, suas mãos aparecem tingidas com o sangue de suas vítimas - o próprio Valentine diz que sempre há um "amor a morrer". Não é demais lembrar que, inclusive, em seu penúltimo álbum, "The Next Day", Bowie lançou a música "Valentine's Day", que trata de um assassino. "Valentine sold his soul / He's got something to say".
"Lazarus" é uma obra profunda que, além de nos encantar pela beleza com que é executada, nos faz refletir sobre algumas questões que surgem. Enquanto assistia, me foi inevitável pensar sobre a solidão, a melancolia, o amor, a perversão de objetivos, a esperança e a nossa mortalidade. Em meio à solidão, à entrega ao vício e ao abandono, Newton tem de lidar com o peso do passado: não conseguiu retornar a seu planeta natal. As personagens aparentemente projetadas por sua cabeça, aliás, parecem refletir um conflito interno: o conformismo com a situação em que se encontra ou a busca por retomar seu antigo propósito. Nesse sentido, a jovem que passa a representar uma "esperança" tem um papel fundamental.
Ellie, por sua vez, me fez pensar sobre frustrações por, muitas vezes, nossas vidas não seguirem os rumos que verdadeiramente desejávamos. Amargurada e infeliz, seu anseio por mudanças a incentiva, inclusive, a assumir a personalidade de uma pessoa que não é. Ellie não era Mary Lou e o próprio Newton pareceu deixar isso evidente.
Tratada em alguns momentos da história, a morte se fazia ainda mais presente com Valentine. Ele assassinou o homem que conhecia Newton, assumindo sua jaqueta de couro; um casal que anteriormente havia lhe contado uma história romântica de como se conheceram; ao final, incentiva Newton a matar a jovem que representava a "esperança". Essa morte, porém, foi incentivada pela própria jovem, que disse se tratar de uma mulher não totalmente morta, mas não totalmente viva, desejando, enfim, morrer de uma vez. Nesse sentido, a morte adota uma conotação curiosa: embora representasse, na prática, o assassinato das esperanças do alienígena - a ser cometido pelo próprio -, configuraria uma redenção a ela. Ao final, surpresa: ela parece não morrer de fato e o diálogo se segue em um ambiente estrelado, como se Newton estivesse mantendo a já mencionada conversa com sua filha.
Tudo isso em meio a uma execução impecável. As músicas selecionadas para o espetáculo, representantes de diferentes fases da carreira do próprio Bowie, contribuem muito para o andamento da narrativa; foi um prazer ouvir de "Lazarus", de seu derradeiro álbum, a outras como "The man who sold the world", "Life on mars?", "Where are we now?", "Changes", "Sound and vision", entre outras. Todas muito bem cantadas pelos atores, por sinal. Jesuíta Barbosa, que interpretou o protagonista, inclusive, merece menção a parte: ficou tão parecido fisicamente que facilmente podíamos abstrair e considerar que estávamos diante de uma continuação legítima da história que o próprio Bowie interpretou há 43 anos.
A cenografia foi um show a parte: um palco móvel, aliado a um espelho ao fundo, provocava diferentes sensações ao espectador, inclusive de profundidade do espaço. Vez ou outra, aliás, esse palco móvel também se portava como um telão, reproduzindo, entre outras coisas, cenas do filme "O homem que caiu na Terra". Músicos muito competentes tornaram os arranjos incríveis: as adaptações não tiraram o "peso" das músicas originais e contribuíram decisivamente para reforçar o que estava sendo visto na atuação.
Vale, por fim, fazer uma menção honrosa à crítica ao capitalismo selvagem, que brevemente deu as caras no espetáculo: o planeta natal de Newton esgotara seus recursos naturais justamente por conta dele. E tá errada a crítica? Sem dúvidas, não. hahaha
David Bowie foi, sem dúvidas, um dos maiores artistas de todos os tempos.
