domingo, 21 de junho de 2015

Violência policial é "heroísmo nacional"?

Fonte: http://geekness.com.br/wp-content/uploads/2014/07/coronel-021.jpg
    
      Ontem, em minha estadia por algumas horas em uma banca de jornais e revistas, deparei-me com o tão falado "Coronel Telhada em quadrinhos", lançado em meados de 2014 e cuja edição se encontra no nº 2. Algumas das óbvias intenções de Telhada, ao produzir a HQ, era capitanear um segmento que se interessasse por supostas "histórias policiais", além de tentar melhorar a imagem do policial e, também, a sua própria.

     A despeito de ter uma "ideia formada" (afinal, não é de hoje que conheço o Telhada e suas lamentáveis "façanhas" à frente da ROTA, uma das alas mais autoritárias e assassinas da Polícia Militar de São Paulo) sobretudo pela minha clara oposição ideológica ao "criador", resolvi ler a HQ para saciar a curiosidade. O resultado, claro, já era o esperado: nela se encontram imagens que claramente distorcem a realidade cotidiana do paulista(no) (sobretudo do negro, pobre e periférico) na busca por "heroicizar" Telhada.

     Primeiramente, pode-se observar claramente (por exemplo, na capa da primeira edição exposta abaixo), nos traços, uma óbvia vontade de transmitir a figura de Telhada como uma pessoa forte e imponente, de semblante austero, mas justo. Corrobora com este ponto o fato de que o narrador (no caso, o próprio Telhada) tenta apresentar as histórias (que seriam um compilado de recordações suas) evidenciando características problemáticas da megacidade de $P (por exemplo, assinalando a situação precária dos usuários de crack na região conhecida como "crackolândia") e tentando mostrar até uma certa empatia para com os considerados "criminosos".

     Em uma das passagens da história, ao saber que um dos seus perseguidos fora morto por um de seus soldados (pois, supostamente, não havia se entregado), a personagem Telhada é retratada em vários quadros refletindo acerca dessa questão, demonstrando tristeza por mais um jovem "mais novo que seu filho" ter morrido e por ter entrado na criminalidade. Ratifica, ainda, que não se sente nem um pouco à vontade pelas mortes que são cometidas pela ROTA, salientando que a PM não tem ânsia de matar "os inimigos", mas que, na verdade, eventualmente tal aspecto é resultante de uma necessidade.

     Tal postura, todavia, é bastante contrastante com o Telhada "de carne e osso", muito menos "justo" e mais contraditório que sua contraparte em papel e tinta. Apesar de sua assessoria, por exemplo, ter destacado que a intenção da HQ era mostrar um "herói nacional que combate o crime nos rigores da lei"(1), é notório o pouco apreço de Telhada para com a legalidade e os direitos humanos, argumentando, em sessão na Câmara dos Vereadores, que "bandido, para mim, é para a cadeia ou para o saco mesmo. Ele escolhe o caminho"(2).

     A letalidade da PM de São Paulo não é segredo e, tampouco, subestimada. Somente em 2015, segundo dados de março, 117 pessoas (ou "suspeitas de cometerem crime") foram mortas. À ROTA, tropa de elite da PM paulista, cabem 12 mortes na conta (3). Um número bastante preocupante e expressivo, sobretudo se considerarmos que a grande maioria desses mortos representa pessoas oriundas das periferias, marcadas por uma evidente presença de uma população majoritariamente negra e pobre (não podemos esquecer, ainda, as temíveis "incursões" que a ROTA e demais segmentos da PM fazem nessas regiões, uma simples busca no Google evidenciam os desastrosos resultados).

     A preocupação com os direitos humanos inexiste para a PM. O que existe para a corporação, na verdade, é uma postura amplamente autoritária e violenta, sendo o "braço armado" do Estado (que, em tese, teria o "monopólio do uso da violência") e evidenciando amiúde o racismo estrutural inerente em seu modo de agir. Vale frisar que, apesar do racismo ser estrutural na sociedade e, portanto, não ser exclusividade da PM, a manifestação deste racismo por parte da corporação costuma ser extremamente onerosa e letal, uma vez que os meios empregados por intermédio da violência não resultam em algo irreversível como a morte.

     O Coronel Telhada​ pode até intentar melhorar sua imagem e a do batalhão, inclusive tentando capitanear, para si, uma imagem de "herói nacional" que fora atribuída por alguns setores conservadores a um personagem controverso como o Capitão Nascimento do filme "Tropa de Elite", mas bem sabemos que a realidade é muito diferente do que as caras páginas coloridas de sua revista mostram (afinal, a gráfica foi paga com verba de gabinete, isto é, dinheiro público)(4).

     Em uma época em que se procura avançar o debate (muito necessário, a meu ver) acerca da desmilitarização da polícia (segundo pesquisa, apoiada até por grande contingente de policiais)(5), é compreensível que setores favoráveis à manutenção deste modelo autoritário, violento e com claros interesses de classe (afinal, como citado, a maioria das vítimas advém dos setores negros, pobres e periféricos da sociedade e não das elites majoritariamente brancas) de segurança pública procurem, de alguma maneira, reforçar seu ponto de vista. A HQ do Telhada, todavia, a meu ver, felizmente pouco representará de positivo aos favoráveis à permanência da militarização ou do modelo em voga de segurança pública, uma vez que seu alcance é restrito (não está disponível na internet e a tiragem e o tempo de lançamento entre um número e outro é demorado). A bem da verdade, para além dessa questão, evidencia-se um devaneio permeado de egocentrismo do próprio Telhada, em franca ascensão na carreira parlamentar, que procurou pintar a sua própria imagem como a de um "herói nacional", sendo "justo" e "legalista".

     A "justiça" e o caráter "humanitário" tanto de Telhada quanto da ROTA (e demais segmentos da PM) não passam de uma realidade somente na HQ. Considerando as muitas e desastrosas implicações de tal postura da PM na sociedade, "justiça" e "direitos humanos" são só ficção, infelizmente.

PS: No nº2, há, ainda, uma breve representação do incidente envolvendo o Tenente Alberto Mendes Júnior, hoje considerado um "herói" e "patrono" da PM. Mendes fora morto em meados de 1970 pela VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) de Carlos Lamarca, no contexto de acirramento da ditadura civil-militar, isto é, no governo do General Emílio Garrastazu Médici, com a forte presença das guerrilhas urbanas e rurais. A HQ, obviamente, procurou retratar o caso de forma a "mitificar" Mendes e os demais policiais envolvidos, retratando os "guerrilheiros" enquanto inimigos dos interesses do país e da ordem pública.
Tal fato é importante para ilustrar o quanto a disputa pela memória da ditadura civil-militar se faz presente na sociedade, com diferentes grupos requerendo, para si, muitas vezes um papel de proeminência, combate e, outrossim, ressaltando a violência sofrida. É bom lembrar que os assassinatos não partiram apenas dos considerados "grupos guerrilheiros" e "subversivos", uma vez que o próprio Estado autoritário criou mecanismos e meios para controlar a população e garantir sua manutenção, utilizando-se, para tanto, de perseguições, torturas e, por fim, atentados e assassinatos. Vladimir Herzog (1937-1975) que o diga.


Links:
(1)http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/coronel-telhada-vira-heroi-em-quadrinhos-para-fas-da-pm,1637792a542e6410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

(2)http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/05/1449170-bancada-da-bala-na-camara-de-sp-prega-morte-de-bandido.shtml

(3)http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/03/19/rota-e-o-batalhao-que-mais-matou-em-2015.htm

(4)http://www.diariodocentrodomundo.com.br/as-historias-nao-contadas-no-gibi-do-coronel-telhada/

(5)http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/07/30/um-terco-dos-policiais-brasileiros-pensa-em-deixar-corporacao-diz-pesquisa.htm

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