quinta-feira, 2 de julho de 2015

Apenas "manobras" de Cunha? Os privilégios da política institucional e o retrocesso

     O golpismo¹ do sabotador Eduardo Cunha (PMDB-RJ), patrocinado por uma corja de deputados (e, sim, por instituições alheias ao Congresso), é um claro indício de que, para além de questionar a proposta de redução da maioridade penal e sua aprovação, deveríamos contestar o paradigma de se fazer política "institucionalmente" no Bra$il.
     A atual legislatura denota o Congresso mais conservador desde os tenebrosos "anos de chumbo". Tal perspectiva política, muito mais embasada em aspectos religiosos, interesses privados e permeada pelo mito do "cidadão de bem" certamente é uma prova de como as forças políticas do Legislativo podem se articular para suplantar políticas de viés minimamente progressistas. Todavia, o eixo central da problemática está neste modelo de democracia tupiniquim, representativo, no qual os representantes permanecem anos-luz de distância em relação aos representados.
      A classe política (independente se é de âmbito federal, estadual e municipal, aliás), no Bra$il, detém inúmeros privilégios que certamente contribuem para os retrocessos dos quais somos vítimas constantes. Em tempos de críticas raivosas de uma direita contra programas sociais como o Bolsa-Família ou em oposição a políticas afirmativas tal qual as Cotas, pouco clamor encontramos quando se trata de contestar os inúmeros benefícios que um político (e seus familiares) possuem. Se há clamor, ele esmorece rapidamente em discursos vazios e genéricos "contra a corrupção" e em pouca ação prática, isto é, direcionada com propósito transformador. Há auxílio para moradia, escritório político, transporte (e não para metrô, trem ou ônibus, coisas do "cidadão comum", mas carros institucionais e passagens de avião)... Para além disso, salários com cerca de cinco dígitos. Há poucos anos, inclusive, a classe política recebia o equivalente ao 14º e 15º salários - ela "derrubou" tais benesses depois, em 2013², celebrando seu "espírito democrático" (na verdade, suprimir prerrogativas como essas era o mínimo a se fazer, não tem nada de "espírito democrático", foi apenas uma jogada para melhorar a imagem ante a opinião pública).
      Participar da política institucional nada tem a ver com disposição em "representar o povo e seus anseios". Essa forma política é apenas uma ferramenta lucrativa, como a relação "simbiótica" com empreiteiras, por exemplo. É a "máquina pública" submissa aos interesses e ao capital privado.
      Vivemos uma crise de representatividade evidente. Parte disso se deve à falta de eco entre representados e representantes, cuja distância é fortalecida pelas muitas prerrogativas detidas pelos últimos.
      Cunha manobrou. A Constituição de 1988, a "Cidadã", não passa de "letra-morta" em suas aspirações.
      Um golpe foi aplicado na Câmara no dia 01/07. Porém, não se iludam imaginando que a questão da maioridade penal é o "gatilho" disso: na verdade, são anos de privilégios e interesses privados parasitando a "máquina pública".
      O Bra$il e sua jovem e imatura democracia podem se pautar pela lógica da representatividade. Todavia, não me sinto nem um pouco representado.
    
     Precisamos nos opor a este paradigma político institucional de cunho (um pouco com teor de trocadilho, por que não?) parasitário. Da maneira que as coisas são, não se iludam: não há chances de uma "reforma política" conduzida por parlamentares ser positiva.
É preciso fazer valer nossas vozes.

Notas:
¹http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/07/1650544-reducao-da-maioridade-avanca-na-camara-apos-manobra.shtml?cmpid=facefolha

²http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/02/27/camara-aprova-por-unanimidade-fim-do-pagamento-de-14-e-15-salarios-a-parlamentares.htm

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